quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Eu acredito em mim, Bob


a noite vai murchar
como uma violeta mal cuidada
assim seca o rio
num verão sem chuva

você vai se recolher
depois de se queimar no sol
enxugar uma lágrima
que nem sequer caiu

os sorrisos de um passado
serão engavetados
friamente
como um livro não lido

a noite vai murchar
os sentidos estarão fatigados

você ouve novamente bob dylan
cogita um sutil sofrimento
mas enxerga
que mesmo assim
o dia valeu a pena

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Solitariamente


eu não quero ser perfeito
eu não quero ser puro
não basta já a ciência,
a religião e a mente
para dizer-me que sou humano

quero ser gente
gente que se suja,
que brinca, que sente
não quero ser puro
talvez transparente

quero ser de verdade
nem que seja
solitariamente

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Lavrar amor

Para fertilizar este meu solo
É preciso limpar tudo o que sobrou da última colheita
Recolher as palhas podres e rastelar a terra suja,
um plantio direto não seria vindouro
Esticar os braços ao trabalho
Esperar a Lua certa
Para a semente germinar
Que uma safra venha cheia
E que a ceia seja farta

Quando a seara então vingar
Não será de toda eterna,
certa que é humana
Cabe a mim, deitar a mão à enxada
Firmar os olhos no horizonte
Lavrar amor, pra que nada falte.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Cantiga pra não morrer


Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Moça de sonho e de neve,
me leve no esquecimento,
me leve.

Ferreira Gullar