segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Condição humana

e mesmo que me rasgue a carne
navalha quente em minhas vísceras
que me maltrate o coração
por afagar outras mãos
que me ofenda em segredo ou à luz
com palavras, olhares, o desdém
que me vire as costas
que me linche em público
que me humilhe

isso tudo será figura em minha própria mente
o negativo de um reflexo
recorte meu da realidade externa
sua, minha ou nossa

não poderei nunca
condenar ou absolver
a condição humana

domingo, 26 de julho de 2015

Dart marrom

Ele se arrastou sob o sol da cidade até atingir o cruzamento. Esperava o sinal fechar para atravessar a rua com o sofrimento de sempre. A barra das calças ensopadas pela chuva pesava - torturando num caminhar patético. Com a luz amarela disparada no semáforo, ele avistou um Dodge Dart marrom descendo solenemente a avenida. Quando o muscle veterano passou por ele, as janelas se abriram. E era ela ao volante, mostrando o dedo do meio para ele, ao som de AC/DC.

(05/12/2014)

sexta-feira, 20 de março de 2015

Sossegrana

os mandamentos dizem
Eu Quero

e eu não quero nada

só quero que me deixem em paz
e que me pagem pelo meu trabalho

não preciso de mais nada

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Delta de mim

eu gosto é de ficar pelado
depois de um jantar entre amigos
olhar durante minutos
longos minutos
os arrebaldes duma anca
a vislumbrar minha lembrança

ao chegar em casa
eu me dispo
não disponho a nada
coloco um
sonnyboy williamson
e foda-se a navalha
da gaita

o final da solidão
é um bater de palmas
pra um espetáculo
ruim
ou nem tão bom assim.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Paranapanema

uma araucária chora
um pinhão resistente
ao surto

um amigo oculto
não esconde o luto
dos servidores do paraná

a araucária
permanece intacta
no ventre de todos os planaltos
Warta, Umuarama, Sabáudia, Guarapuava
não se cala
guiso algum
de nenhuma
cascavel

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Pálido flerte

Uma fila de carros ia crescendo na Avenida Maringá
camionetes, sedãs, motos e SUVs
se amontoando inacreditavelmente ridículos
em pleno 2015

Do outro lado da pista
uma menina pedalava uma ceci vermelha
no rosto um riso sereno e olhos descansados

Na ala dos carros
ninguém percebia o fenômeno
e dentro do meu Pálio
eu flertava pálido
os abismos da vida.