terça-feira, 13 de maio de 2014

Tipo Johnny Cash

Tinha um velho que cuidava do estacionamento que lembrava muito o Johnny Cash. Mas do tipo brasileiro barrigudo mesmo, com um sorriso sacana sempre pendurado no rosto. Todos os dias, perto da hora do almoço, ele tomava uma cachaça vagabunda num copo de plástico. recebia os carros com os olhos baixos e rabiscava a placa numa caderneta. Ao me ver, emitia um balido curto e grave: "Oh!". Não sei por que, mas toda vez que eu o via, parecia sempre que ele acabara de enviar um "foda-se" mentalmente para toda a realidade que o circundava. Um puta ser humano.

Penumbra

havia apenas um poste naquela rua escura e distante
a lâmpada agonizava um amarelo sujo
marília disse duas palavras, temperadas à frio e fraqueza
- não dá.
ela entrou em casa
josé ouviu o latido do cão
baixou o queixo ao peito e cerrou solene os olhos
a única luz rangia sob os primeiros pingos da chuva
até que não resistiu e apagou de vez.

Foda-se, Joaquim

acordou atrasado para a reunião
vestiu o jeans menos sujo e amassado que achou no caminho
teve que parar no posto pra não ficar sem gasolina
todas as ruas estavam congestionadas
sirenes dividiam espaço com sertanejos, funks, secos e molhados
quis pegar o cigarro no console e quebrou no filtro o último exemplar
alcançou uma avenida vazia
correu tudo que pôde
bateu no poste da esquina
80 por hora
meio-dia
desatou o cinto
saiu do chevette ileso
desceu a rua das moscas
entrou no boteco do baiano
pediu um conhaque
e riu pra cacete.