quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Paulo de Tharso - Contra o vento

Conheci essa canção logo depois de saber da morte do cantor e ator Paulo de Tharso. Tem sido dias inconstantes e vazios, as palavras fogem, os dedos se arrastam, a luz é escassa. Mergulho nos versos da canção e suspiro sobrevivente durante os 5 minutos do vídeo... "Minha afeição eu a perdi com a idade..." Embora sempre haja alguém pra dizer que a "vida segue", consinto a mesma perda do verso, do poeta. Bebo sua mesma bebida, fumo o mesmo cigarro, tenho semelhante queda... E vou praticando um recomeço desengonçado do movimento. Até quando ainda houver tempo...

https://www.youtube.com/watch?v=0gMCcp8K8zQ&hd=1

sábado, 16 de novembro de 2013

Pedaço de nada de algo inexistente

não sinto nada
eu bebo, eu fumo
eu trago, eu paro
ando, paro, penso
e nada sinto
não consigo chorar
ou rir por um istante
subo o som bem alto em canções tristes
não consigo arrepiar
sombrancelhas dançam em vão
voz adormecida em desuso
na TV o gol
na rua a chuva
na sombra o frio
eu olho em tudo mas não vejo nada
álcool, cannabis, nicotina, letras
tudo insípido, insuficiente, ineficaz
esperança escassa
nem mesmo um blues em brasa
me abala a alma
intocável objeto
insensível sujeito
o tempo passa e o espaço fica
eu nada sinto
uma história passada
um labirinto místico
acordes indecisos no violão
cães ladram na rua
o vento cessa
a bebida acaba
a luz se apaga
amanhã tudo de novo

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Rascunho de vento

Estrelas caem
o anúncio chega
o céu chora
quem vai embora

Estrelas sobem
o remetente some
a nuvem passa
quem fica aguenta

Estrelas nascem
o remédio acaba
a dor não passa
a vela acende

Estrelas morrem
há quanto tempo
rascunho de vento
sobrevoa à margem

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Aquela velha história

Aquela velha história
um dia vai fazer sentido
aquela velha história
um dia vai me dar juízo
aquela velha história
um dia será minha amiga
aquela velha história
um dia me fará menino
aquela velha história
um dia vai ser sempre aquilo
aquela velha história
um dia vai me dar abrigo
aquela velha história
um dia vai brincar comigo
aquela velha história
um dia vai ser hoje, amanhã, Domingo

domingo, 29 de setembro de 2013

Boca muda
peito falante
o horizonte
                que
                     mespante

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Não deixe o amor passar

Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida.
Se os olhares se cruzarem e, neste momento,houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.
Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.
Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Deus te mandou um presente: O Amor.


Por isso, preste atenção nos sinais - não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: O AMOR.

(Carlos Drummond de Andrade)

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Proteção (Casa de Mãe)

Em casa de mãe há proteção
Tem flores, gramas, folhas
Bons vizinhos, pássaros, abelhas
Em casa de mãe tem proteção
Tem índio, branco, preto
amarelos, azuis, vermelhos ancestrais
Arruda, São Jorge, olho-grego
Em casa de mãe estamos em paz.

Obrigado

quem já sabe os caminhos
as estradas, ferrovias
longas highways
conhece o bem e o mal
e convive muito bem com eles
um dia quero estar lá
no lugar onde tudo se encontra
onde as encruzilhadas
-apesar de escuras
vão muito bem iluminadas, obrigado.
obrigado. obrigado.

domingo, 8 de setembro de 2013

Por andar sozinho

Por andar sozinho
por andar no escuro
por viver no limbo
e conhecer o Olimpo
por ir andando
e chegar voando
por sentar na praça
e beber o vinho
por rimar com graça
e sorrir com tino
por sonhar apertado
e acordar cheio
de andar sozinho
e dormir sem jeito
por correr deitado
e desejar sujeito
deixo objetos soltos
no mar do peito

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Um Poema é Uma Cidade

(leia ouvindo http://www.youtube.com/watch?v=x6KkJ6-Ecxw)

um poema é uma cidade cheia de ruas e esgotos
cheia de santos, heróis, pedintes, loucos,
cheia de banalidade e bebedeira,
cheia de chuva e trovão e períodos de seca,
um poema é uma cidade em guerra,
um poema é uma cidade perguntando ao relógio por quê,
um poema é uma cidade em chamas,
um poema é uma cidade rendida por armas
suas barbearias cheias de bêbados cínicos,
um poema é uma cidade onde Deus anda pelado
pelas ruas como Lady Godiva,
onde cães latem à noite e perseguem a bandeira;
um poema é uma cidade de poetas,
quase todos um tanto semelhantes
e invejosos e amargos…
um poema é uma cidade agora,
50 milhas de lugar nenhum,
9:09 da manhã,
o gosto de bebida e de cigarros,
sem polícia, sem amantes, andando pelas ruas,
este poema, esta cidade, as portas fechadas,
barricadas, quase vazia,
desolada sem lágrimas, envelhecendo sem pena,
as montanhas rochosas,
o oceano como uma chama de lavanda,
uma lua destituída de grandeza,
uma pequena música que vem das janelas quebradas…
um poema é uma cidade, um poema é uma nação,
um poema é o mundo…
e agora eu espeto isso sob o vidro
para o exame detalhado do editor maluco,
e a noite está em outro lugar
e frágeis damas cinzentas estão na fila,
cão segue cão até o estuário,
as trombetas trazem a forca
enquanto pequenos homens se gabam de coisas
que não podem fazer.

Charles Bukowski

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Nos camarotes do teatro

nos camarotes do teatro
está a plateia mais difícil
a quem as dores do palhaço são risíveis
e as dores do clown são impossíveis

nos camarotes do teatro
está a platéia mais difícil
a quem ninguém entende o sacrifício
de morrerem malabares e atrizes

domingo, 4 de agosto de 2013

As mulheres de Graciliano Ramos

Lançado pela Eduel (Editora da Universidade Estadual de Londrina), “Mulheres de Graciliano" é o segundo livro de autoria de Marcos Hidemi de Lima, um pesquisador da obra do autor alagoano. Neste trabalho, Lima investigou as atuações femininas nos romances S. Bernardo, Angústia e Vidas secas. Uma reflexão sobre como o gênero se movimentou dentro da obra literária, sobre sua posição na ordem patriarcal fortemente cultuada no século XX, precedendo os movimentos de libertação da mulher na década de 60 até os dias atuais.

O autor também pretende submeter sua pesquisa ao Festival Literário de Paraty (FLIP) deste ano, que homenageará Graciliano Ramos, que completa 120 anos de seu nascimento no dia 27 de Outubro. O festival se realizará entre os dias 3 e 7 de Julho.



Lima é também autor de um livro de poesias intitulado “Danças de palavras e sons", lançado em 2005 pela Atrito Art com recursos do Programa Municipal de Incentivo a Cultura (Promic). Pesquisador do universo da “periferia social", ele espera publicar um apanhado de artigos produzidos ao longo de sua vida acadêmica  num só volume, intitulado “Várias tessituras", analisando a obra de autores como Chico Buarque, Lima Barreto e Ignácio de Loyola Brandão. Além deste, Lima aguarda o lançamento de mais dois livros de poesia, “Eros & Piras" e “Poesiar". O primeiro já foi aprovado pelo Promic, somente esperando o recurso para publicação; o segundo está em processo de avaliação pela editora.

Marcos Hidemi de Lima é atualmente professor colaborador da Universidade Estadual Norte do Paraná (UENP), campus de Cornélio Procópio.

No áudio, entrevista gravada com Lima, falando sobre sua produção atual e seus planos de publicação para o futuro.



Para mais informações sobre o livro e como comprá-lo, acesse:  http://www.uel.br/editora/portal/index.php?content=../catalogo/catalogo-online-detalhes.php&codProduto=785

Sebo

Neste dia
Vista minha poesia
Use-a como roupa
Iluda-se
             desiludindo-se
                                    revista.

sábado, 3 de agosto de 2013

Teias de aranha

Teias de aranha
dizem algo sobre homens e mulheres
numa casa

Teias de aranha se acomodam nos cômodos
de uma casa que ficou velha

Uma casa de homens e mulheres
um dia
crianças

Teias são como casas de fantasmas,
guardadas sob a vigília de suas aranhas

Aranhas são seres que tudo observam
no limite microscópico de seus pequenos e muitos
olhos

Elas olham um mundo externo,
enquanto sobrevivem do infortúnio de moscas,
mariposas.

São vários os mundos entre
aranhas, mariposas, homens e mulheres

Até que um dia os olhos de todos os seres se entrecruzam

Aí residirá alguma coisa que não só os olhos de
um
sobre
outro

Será o dia
de um começo de dias
onde uns
e
outros
trocarão ou dividirão
um mesmo ângulo de visão

Onde os termos serão vento
a sacudir desígnios entre os seres
a movimentar funções
a rodopiar os moinhos
a saber, por fim,
o que exatamente significará infortúnio.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Pequeno contemplo

Tentei dizer algo
desse seu sorriso
De tão maduras
- as cores do lábio e dentes
Gostosos de enxergar
Floresce um fogo rígido
a procura da prova
E desce,
silenciosamente sereno,
no mel dos seus olhos castanhos.

Elevento



quem precisa de moinhos
quando estamos todos concentrados
nos nossos infinitos fiéis escudeiros?
quando somos cavaleiros livres
aprendemos a derrotar reis
tão facilmente
quanto a viver sem sofrimento

(imagem: Dom Quixote on Horsebak, de Edward Hopper, 1902).

Coruja

Quando a coruja pousa
não há mal que se ouse
nem bem que se afaste

Quando a coruja pousa
o sorriso se estende
e a mente se apruma

Quando a coruja pousa
os cacos estão só na tevê
e os dentes a mostra

Quando a coruja pousa
o tempo é outro
num dia suspenso
até que a coruja voa

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Escute aqui

Escute aqui:
Eu sou criança e velho
ao mesmo tempo.
A criança é Anarquista
- cadê a novidade?
O velho é comunista
- onde vai com tanta pressa?

terça-feira, 23 de julho de 2013

Kairos

Eu estou apaixonado pela vida.
Não é nenhuma pessoa em especial
nem apenas um novo disco
eu estou apaixonado pela vida
porque isso me deixa feliz e acredito que assim é bom pra todo mundo.
Não é que eu seja egoísta
mas meu coração é vagabundo.
Não quero ferir ninguém
não cabe a mim esse homicídio
eu to aqui em virtude do vício
segure a minha mão quando estiver cansado
e quando estiver tranquilo,
correremos juntos no descampado...

sexta-feira, 28 de junho de 2013

De onde eu vim

de onde eu vim
eu não entendo
do sul da Espanha e Itália
de uma figueira em Lisboa
de uma passagem à toa
um silêncio Atlântico

de onde eu vim
não sei bem certo
um desenho a lápis
numa escola de Cambé
um risco a tijolo
na rua café caturra

de onde vim
pra ser quem sou
era asfáltico e pedregoso
melancolia e afeição
sorriso frio e peito quente
em manhãs claras de inverno

eu vim
de onde eu fui
ser menino branco
num sonho rubro
ser tristeza branda
num pranto alegre
ser presente vivo
de um dia como hoje
- tão perto do passado
das ruas
da febre.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Jornais do mundo burguês
abrem-se em manchetes colossais
e do lado esquerdo da rua
o silêncio

Do bangalô de luxo um suspiro
um suspiro do senhor do bangalô
e do lado esquerdo da rua
o silêncio
Foguetes ensurdecedores
rasgam o firmamento
em violentas explosões de júbilo
e do lado esquerdo da rua
o silêncio

O nome de Deus
pelas caridosas senhoras do soçaite
é pronunciado com emoção
elas agradecem
a salvação dos seus palácios
e suas piscinas ornamentadas
de coxas
seios
e virgindades mortas
e do lado esquerdo da rua
o silêncio

A "sagrada" propriedade
privada
da terra ensanguentada
está salva
os senhores da terra
matam bois e carneiros
para a festa antecipada
e do lado esquerdo da rua
o silêncio

O silêncio
do silêncio surge a "profecia"
"toda noite tem aurora"
quebra-se o silêncio
do lado esquerdo da rua
rompe o sol no horizonte
os raios invadem o lado
esquerdo da rua
a liberdade se anuncia
treme o lado
direito da rua


*Poema de Manoel Coelho Raposo, feito em 1964, durante sua prisão no Quartel do 23º BC, Fortaleza, Ceará.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Não me sinto confortável

Às vezes não me sinto confortável
meus braços pesam
minhas mãos vacilam
não sei onde pousar meus ouvidos
não controlo o que meus olhos absorvem
Às vezes não me sinto confortável
o corpo parece prestes a explodir
não sei se fujo ou se fico
adrenalina e letargia, ao mesmo tempo
Às vezes não me sinto confortável

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Blues de pé




eu vou tocar o meu blues sentado
que é pra quando eu estiver deitado
eu ver o quarto melhor

eu vou tocar o meu blues sereno
com o slide sofrendo
eu não sinto medo

eu vou tocar o meu blues sozinho
pra quando fizer frio
o dia passar

eu vou tocar um blues antigo
pra ser meu amigo
quando o sol nascer

eu vou levantar e cantar meu blues de pé
enrouquecer a voz e beber o café
entrar no trem e nunca mais voltar

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Refúgio


O vagão vazio da noite
esconde o silêncio exato
que você e eu
fazemos questão de guardar
no frio agradável dos nossos olhos escuros

sexta-feira, 26 de abril de 2013

A menininha


A menininha
empurrava a mochila
de rodinha

A mochila era rosa
o cabelinho, amarelo

Segurava um doce com a mão
lambia e lambia

Só mordeu quando a mãe lhe mandou.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Aconteceu



Ouvi um uivo de um vira-lata e dobrei a esquina errada, era a Sergipe com a Minas Gerais, passando um carro-forte com uma porção de caras mal-encarados olhando pra mim querendo me castigar por algo que não fiz. Comi meu sanduíche amanhecido e subi pra casa. Achei que fosse Belchior cantando rouco numa vitrola velha, mas era Bernardo Pellegrini embalando um blues com um naipe surreal de metais. Admirei de início. Sem acabar o disco todo, entrei num quarto vazio e dancei como o último milionário vivo no ocidente. Eu sofri quando a “Carro-forte” acabou, mas saí ileso com aqueles acordes calmos da “Prometeu” e desapareci na neblina fria do outono da região central.

Desculpe. Tive que parar pra tomar um gole de Antarctica e voltar ao mundo incrível que o groove especialíssimo da quinta faixa promete. Está acontecendo. Está rolando. Um chapéu do panamá decora a cabeça de um amigo improvisando um solo de baixo, surfando baixo pelo canto do meu quarto. Eu realmente estou gostando disso.
Ele disse que faria uma promessa e eu certamente não recusei. Um poema é um vel.

‘Tá só na metade.

“Kama sutra” te indica posições que o ouvido ainda não tinha navegado. Mas traz uma mensagem do passado que garante uma nostalgia precisa e fundamental. Um bandolim silvestre se completa com o arranjo original. Eu gosto do seu edredom, e nesse momento eu até imagino aquele velho quadro do Beatles enfeitando seu quarto com uma graça tremenda. Mais do que nunca, você é linda e essa crítica é uma autobiografia razoável. Tenho medo do que não sou e pareço ser.

“Rápido amor” tocará no meu casamento. E eu vou casar várias vezes. Todas serão o amor da minha vida, sou uma espécie de Fábio Junior bêbado de Velho Barreiro. Os olhares cruzam no retrovisor, certamente saberei seu nome olhando pela janela os seus lábios umedecidos de café. Eu te amo. Isso não acabou.

Eu choro mais que criança presa na creche em dia dos pais. Mas eu não posso chorar agora. Não com esse piano. Hesito em ligar pra uma central médica, precisando de apoio hospitalar. Mais um pouco estarei enterrado, por isso eu não quero chorar agora. Pelo menos não com essa melodia medieval ansiando o fim como um cachorro em leito de morte. Não choro.

Que blues.

O silêncio se permite.

Os vinte cigarros não bastam para o solo de “Se eu chorar eu morro”.

Acorde-me amanhã recebendo tratamento para enfisema. Não ligo. Só me acorde.

Parece que “O chapéu do meu avô” veio de Cianorte. Uma gentileza de Almería, consertando relógios como Rousseau e falando sobre o último jogo do São Paulo, sempre xingando o Rogério Ceni e me chamando de macuco. No seu quintal não há pés-de-cana, mas há muito café. Antonio Martinez, algumas boas décadas de vida e muito vinho do Rio Grande envelhecendo no balcão da antiga casa no jardim Bandeirantes.

Um fluxo contínuo me cortejando num sábado qualquer de uma vida inquestionável. Eu faço vocalizações acompanhado o elegante arranjo da última canção. Eu vou parando por aqui, isso está me levando pra Saturno. Isso não é bobagem. Estou ciente do que está acontecendo. Embora não pareça. Uma passagem só de ida.

É isso que vai acontecer, Bernardo.
“O amor é isso. Não prende, não aperta, não sufoca. 
Porque quando vira nó, já deixou de ser laço.”

(Mário Quintana)

terça-feira, 16 de abril de 2013

"eu não vou dizer que eu te amo
e nem deixarei de te querer".

Medo e delírio em algum canto do meu quarto


Isso vai doer como uma bala alojada no baixo ventre, esperando o momento certo de alastrar o chumbo para todo o organismo e ferir as vísceras, uma a uma, como que num fúnebre dominó na mesa suja de uma varanda abandonada de um boteco da zona oeste.

Isso machuca, eu sinto o golpe agora, desferido violentamente em silêncio contra minha testa, estômago e pescoço. O fogo carburando o último átomo de gasolina dentro do pistão, explodindo finalmente o combustível assombroso que faz um trem descarrilar e um carro perder o controle na curva.

Isso mergulha, e fura a espessa superfície de um livro velho, ainda não fichado.  Uma vontade humilhante de ouvir o Dark Side of the Moon sozinho e resignado. Cinco litros de café manchando o dia como óleo diesel, lubrificando e queimando toda a estrada embora pra casa.

Isso é mais um espasmo, uma luz que se apaga numa madrugada surreal de um outono precoce. Um solo de gaita descontextualizado, distante e afiado como um slide de navalha num vagão de trem indo pra St. Louis. Isso está terminando, embora pareça não me deixar nunca. E antes que acabe o último refrão de blues, eu vou uivar como um lobo bastardo  procurando o caminho de volta depois de uma caçada realmente iluminada.

E, merda, eu não desejo isso a ninguém - I got the blues again.

Calafrio

Meu coração é gelado
Um dia pagarei caro
Por ter o espírito louco
E o corpo fraco.

terça-feira, 26 de março de 2013

Névoa e sangue

Esta chuva de Outono cai como adaga
Numa manhã febril de um pálido dia
Meus olhos não abrem por inteiro
Depois de um sonho mordido de receio

Um calor sobe pelas minhas vísceras
Estremecendo toda minha espinha
No interior não desbravado de minha alma
Uma sede mórbida de morfina

Meus olhos permanecem semi-abertos
No centro de toda essa neblina
Névoa fria e serena
Manchada pelo teu sangue.


domingo, 24 de março de 2013

Rio


boa noite.
durma bem
é o que eu tenho a oferecer

o presente é um rio
que tudo arrasta
nosso pé não se enraíza

vai e não volta
como lodo na correnteza
cobra d'água no curso do riacho
não ficamos como terra na ribanceira

não é prescrito nada
nas mentes humanas só há desejo
seguiremos esboçando
o velho sonho de sermos
o que o sangue nos habilita a viver.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Nada mais que isso


não sou a expectativa
não sou o que você esperava
um sopro de resposta
um vinho tinto
uma mescla de bossa nova e rock and roll
como cazuza sugeriu
não sou

desculpe-me

eu sou isso e aquilo
que você não desenhou
um riff errado de blues
um calibre alto do rifle
um absurdo literário
um remetente estranho
um desconhecido
eu sou nada e tudo, ao mesmo tempo

eu sou eu mesmo
e nada mais que isso.

sexta-feira, 15 de março de 2013

La Montaña Gris pari um unicórnio no campus da UEL

Um ritmo celta, que começa manso, como uma fada num bosque de Tolkien, invade as árvores do Cequinha (espaço do Centro de Educação, Comunicação e Artes da UEL localizado próximo ao Restaurante Universitário), cresce como uma fábula nórdica sussurrando aos ouvidos dos estudantes presentes e finalmente rodopia a todo vapor como uma ciranda alucinada de gnomos a bater palmas freneticamente. Este é o ritual necessário para que um Unicórnio nasça. Com muito humor e folclore do Norte Europeu, Pablo Villegas (voz, violino e violão) e Sara Zapata (violino, flauta e voz) estão em turnê pelo Brasil e em Londrina os integrantes da banda colombiana de música celta La Montaña Gris deram uma amostra do que é cantar a tradição nórdica em língua latina, abusando do imaginário da literatura universal.

Na entrevista em áudio, Pablo Villegas fala um pouco mais sobre o trabalho do grupo.


No vídeo, uma das canções que fizeram florescer a dança no Cequinha.


terça-feira, 12 de março de 2013

Sorriso rubro


ela tem um all star cano alto
levanta e nem vê que o cadarço soltou
com a camisa do Jim Morrison ela viaja pelo quarto
olha pra mim como se eu tivesse querendo sua brisa
veste a jaqueta jeans e rasga um sorriso rubro
cantando frases dispersas, faz dramas e fala sozinha
responde minhas indagações com sutil sarcasmo
dança boogie no meio da cozinha
o mel que lhe escorre pelos cabelos
balança minha fome de urso
ela calça o all star cano alto
enquanto eu desenho seu lábio no espelho.

sexta-feira, 8 de março de 2013

O tempo me ajudou a entender

Se uma atitude não atendeu às suas expectativas, ou que mesmo não houve atitude alguma, embora houvesse esperança, saibais que o outro, e nós mesmos, sempre fazemos o melhor que podemos no momento. Sempre damos o melhor que podemos dar. Somos o melhor que podemos ser. Sobretudo, eu entendo melhor agora. Não existem laços perfeitos. Mas fortalecê-los é sempre possível.

texto publicado nos efêmeros confins do facebook, em Novembro de 2012.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Sorry, mundão


O trabalho ta dobrado
Salário continua minguado
Ônibus ta lotado (e mais caro)
R.U ta mais caro (e mais apertado)
Rango desce mal mastigado - para à aula, eu não chegar atrasado

Desculpa, chefia, se o trampo sair malacabado
Perdão, docência, se o TCC sair cansado
Sorry, mundão, se eu escolher viver embriagado.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Licença

Um pouco sem jeito, meio envergonhado
Este poema é um pedido... desengavetado
Peço licença, ao entrar em seus olhos
Peço um copo de bom senso, sem chance ao desdém
Uma chance a mim mesmo
De não importunar ninguém

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Bem-te-vi

Trabalho, trabalho, trabalho
Cérebro, comércio,
Braços, domésticos

Poeira, fumaça
Boletos, louça suja

O que salvou o dia
Foi um bem-te-vi que eu vi na rua.


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Mr. Wolf on the top



One summer day, she went away;
Gone and left me, she's gone to stay.
She's gone, but I don't worry:
I'm sitting on top of the world.

All the summer, worked all this fall.
Had to take Christmas in my overalls.
She's gone, but I don't worry:
I'm sitting on top of the world.

Going down to the freight yard, gonna catch me a freight train.
Going to leave this town; worked and got to home.
She's gone, but I don't worry:
I'm sitting on top of the world.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Do Tibagi e algo mais


Porque nós estamos aqui a passeio. E como todo bom passeio, temos que estar com boas companhias, valorizar cada pessoa que, por um sortilégio ou outro, felizmente descarrilou nas nossas estradas. É por essas pessoas que não abrem mão de estar conosco, em todos os momentos, que temos o raro prazer de dividir cada suspiro de nossas vidas. É com essas pessoas, que mesmo após uma longa jornada, sempre haverá um olhar altivo ao horizonte, ansiando mais uma trip, uma lufada nova de luz, um rolê-por-vir. É com essas pessoas que nós pegamos a estrada, depois de uma noite de rock and roll e rumamos ao além, para mergulhar sem medo no rio Tibagi. Para abraçar a árvore que nos salva dos seres humanos, para colher as ameixas maduras dos galhos receptivos. Para mergulhar sem receio na teia complexa e infinita da vida. Não tenho medo de amar os meus amigos. Não tenho medo de ser.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Pacto fechado


O blues invadiu o meu corpo, rastejou invisível sob minhas vísceras, alcançou os pés, as mãos e o último fio de cabelo, me subiu aos céus e ganhou o inferno inteiro, lavou minhas retinas e assombrou meus ouvidos, quebrantou minhas fibras e entrelaçou meus dedos, mordeu minha ferida e cuspiu na minha cara, o blues veio e não saiu, aqui está, arriscando a minha vida, empurrando conhaque velho goela abaixo, como um slide deslizando gostoso um clichê do Mississipi nas minhas cordas ensanguentadas. Não consigo dizer adeus ao blues, tal como um abutre não se afasta da carniça jamais. Eu não sou limpo, isso aqui não foi pra agradar ninguém. Foi só pra não esquecer que esse é o jeito. É disso que eu lhes falava há pouco, meus amigos. E quando eu finalmente enterrar meu corpo nalgum canto esquecido dessa cidade, serei eu a uivar solitariamente nas encruzilhadas erradas destes cantos - o acordo já foi feito por lá, pacto fechado. Fiquem com Nietzsche. Auf wiedersehen.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Leave me, lead

A gente não quer a notícia. A verdade não existe nestas fórmulas jornalísticas. A gente quer consolo e um motivo pra continuar acreditando na vida. Isso não se encontra no lead, tampouco na manchete e numa linha fina. O hot news só esquenta a nossa dor. O que a gente quer não é notícia, nem os comentaristas. A gente quer o afago real das palavras. O suspiro humano consentido no texto - escrito, falado, gesticulado, poético por natureza. Não queremos o texto perfeito, analgésicos baratos. Queremos o que se lê quando a página está borrada de sangue e de lágrimas e mesmo assim, nenhum exagero, queremos a paz no final da mensagem, a utópica sensação de alívio ao encontrar nas palavras o amor de quem escreveu.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Everyday I howl my blues




Everyday I have the blues
And everynight I can howl it loud
Everyday I have the blues
And my misery fade away among the crowd.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Olhar à esquina


estes seus olhos me rasgam
e te encontrei a duas quadras de casa

estes seus olhos me rasgam
e são três lances de escada
para subir picotado

embaraçosamente picotado
com o clarão dos seus olhos

eu não consegui falar claro
como seus olhos
e eu moro tão perto

apressei um passo rasgado
subi embaraçado
e escrevo estes versos cortados

quem é você pra me rasgar assim
lâmina de mel e vento
que violenta meus sentidos
reduz a minha idade
me faz fechar os olhos

quem é você
raio vespertino
a preludiar um sonho

Bom dia, amor


eu sou aquilo que se nota
num olhar desanuviado
sem receio
eu sou um reflexo mal ajeitado de espelho

meus olhos se despontam
sem pretensão de ferir

meus sinais são captáveis
para você, para mim

uma água clara
nem límpida
nem cristalina
potável

aqui não há transparência perfeita
tampouco o rastro divino
nota-se um desassossego
é verdade
de uma vontade de vida

bom dia, amor
o olhar de hoje
é o olhar do presente
quem vive o amanhã
não sentirá a retina
benigna
do agora
do sempre

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Morena eslava


mas uma pele morena
numa veia eslava
um leste europeu
muito mulato

eu ouvi tudo que você disse
no teto alterado
de meu consciente
entendo seu suspiro
e renego lamento

morena, eu gosto
eu sinto
eu sei

pra sempre esta ucrânia
será uma morena eslava
que beijei