Ouvi um uivo de um vira-lata e dobrei a esquina errada, era
a Sergipe com a Minas Gerais, passando um carro-forte com uma porção de caras
mal-encarados olhando pra mim querendo me castigar por algo que não fiz. Comi
meu sanduíche amanhecido e subi pra casa. Achei que fosse Belchior cantando
rouco numa vitrola velha, mas era Bernardo Pellegrini embalando um blues com um
naipe surreal de metais. Admirei de início. Sem acabar o disco todo, entrei num
quarto vazio e dancei como o último milionário vivo no ocidente. Eu sofri
quando a “Carro-forte” acabou, mas saí ileso com aqueles acordes calmos da
“Prometeu” e desapareci na neblina fria do outono da região central.
Desculpe. Tive que parar pra tomar um gole de Antarctica e
voltar ao mundo incrível que o groove especialíssimo da quinta faixa promete.
Está acontecendo. Está rolando. Um chapéu do panamá decora a cabeça de um amigo
improvisando um solo de baixo, surfando baixo pelo canto do meu quarto. Eu
realmente estou gostando disso.
Ele disse que faria uma promessa e eu certamente não
recusei. Um poema é um vel.
‘Tá só na metade.
“Kama sutra” te indica posições que o ouvido ainda não tinha
navegado. Mas traz uma mensagem do passado que garante uma nostalgia precisa e
fundamental. Um bandolim silvestre se completa com o arranjo original. Eu gosto
do seu edredom, e nesse momento eu até imagino aquele velho quadro do Beatles
enfeitando seu quarto com uma graça tremenda. Mais do que nunca, você é linda e
essa crítica é uma autobiografia razoável. Tenho medo do que não sou e pareço
ser.
“Rápido amor” tocará no meu casamento. E eu vou casar várias
vezes. Todas serão o amor da minha vida, sou uma espécie de Fábio Junior bêbado
de Velho Barreiro. Os olhares cruzam no retrovisor, certamente saberei seu nome
olhando pela janela os seus lábios umedecidos de café. Eu te amo. Isso não
acabou.
Eu choro mais que criança presa na creche em dia dos pais.
Mas eu não posso chorar agora. Não com esse piano. Hesito em ligar pra uma
central médica, precisando de apoio hospitalar. Mais um pouco estarei
enterrado, por isso eu não quero chorar agora. Pelo menos não com essa melodia
medieval ansiando o fim como um cachorro em leito de morte. Não choro.
Que blues.
O silêncio se permite.
Os vinte cigarros não bastam para o solo de “Se eu chorar eu
morro”.
Acorde-me amanhã recebendo tratamento para enfisema. Não
ligo. Só me acorde.
Parece que “O chapéu do meu avô” veio de Cianorte. Uma
gentileza de Almería, consertando relógios como Rousseau e falando sobre o
último jogo do São Paulo, sempre xingando o Rogério Ceni e me chamando de
macuco. No seu quintal não há pés-de-cana, mas há muito café. Antonio Martinez,
algumas boas décadas de vida e muito vinho do Rio Grande envelhecendo no balcão
da antiga casa no jardim Bandeirantes.
Um fluxo contínuo me cortejando num sábado qualquer de uma
vida inquestionável. Eu faço vocalizações acompanhado o elegante arranjo da
última canção. Eu vou parando por aqui, isso está me levando pra Saturno. Isso
não é bobagem. Estou ciente do que está acontecendo. Embora não pareça. Uma
passagem só de ida.
É isso que vai acontecer, Bernardo.

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