terça-feira, 23 de abril de 2013

Aconteceu



Ouvi um uivo de um vira-lata e dobrei a esquina errada, era a Sergipe com a Minas Gerais, passando um carro-forte com uma porção de caras mal-encarados olhando pra mim querendo me castigar por algo que não fiz. Comi meu sanduíche amanhecido e subi pra casa. Achei que fosse Belchior cantando rouco numa vitrola velha, mas era Bernardo Pellegrini embalando um blues com um naipe surreal de metais. Admirei de início. Sem acabar o disco todo, entrei num quarto vazio e dancei como o último milionário vivo no ocidente. Eu sofri quando a “Carro-forte” acabou, mas saí ileso com aqueles acordes calmos da “Prometeu” e desapareci na neblina fria do outono da região central.

Desculpe. Tive que parar pra tomar um gole de Antarctica e voltar ao mundo incrível que o groove especialíssimo da quinta faixa promete. Está acontecendo. Está rolando. Um chapéu do panamá decora a cabeça de um amigo improvisando um solo de baixo, surfando baixo pelo canto do meu quarto. Eu realmente estou gostando disso.
Ele disse que faria uma promessa e eu certamente não recusei. Um poema é um vel.

‘Tá só na metade.

“Kama sutra” te indica posições que o ouvido ainda não tinha navegado. Mas traz uma mensagem do passado que garante uma nostalgia precisa e fundamental. Um bandolim silvestre se completa com o arranjo original. Eu gosto do seu edredom, e nesse momento eu até imagino aquele velho quadro do Beatles enfeitando seu quarto com uma graça tremenda. Mais do que nunca, você é linda e essa crítica é uma autobiografia razoável. Tenho medo do que não sou e pareço ser.

“Rápido amor” tocará no meu casamento. E eu vou casar várias vezes. Todas serão o amor da minha vida, sou uma espécie de Fábio Junior bêbado de Velho Barreiro. Os olhares cruzam no retrovisor, certamente saberei seu nome olhando pela janela os seus lábios umedecidos de café. Eu te amo. Isso não acabou.

Eu choro mais que criança presa na creche em dia dos pais. Mas eu não posso chorar agora. Não com esse piano. Hesito em ligar pra uma central médica, precisando de apoio hospitalar. Mais um pouco estarei enterrado, por isso eu não quero chorar agora. Pelo menos não com essa melodia medieval ansiando o fim como um cachorro em leito de morte. Não choro.

Que blues.

O silêncio se permite.

Os vinte cigarros não bastam para o solo de “Se eu chorar eu morro”.

Acorde-me amanhã recebendo tratamento para enfisema. Não ligo. Só me acorde.

Parece que “O chapéu do meu avô” veio de Cianorte. Uma gentileza de Almería, consertando relógios como Rousseau e falando sobre o último jogo do São Paulo, sempre xingando o Rogério Ceni e me chamando de macuco. No seu quintal não há pés-de-cana, mas há muito café. Antonio Martinez, algumas boas décadas de vida e muito vinho do Rio Grande envelhecendo no balcão da antiga casa no jardim Bandeirantes.

Um fluxo contínuo me cortejando num sábado qualquer de uma vida inquestionável. Eu faço vocalizações acompanhado o elegante arranjo da última canção. Eu vou parando por aqui, isso está me levando pra Saturno. Isso não é bobagem. Estou ciente do que está acontecendo. Embora não pareça. Uma passagem só de ida.

É isso que vai acontecer, Bernardo.

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