terça-feira, 16 de abril de 2013

Medo e delírio em algum canto do meu quarto


Isso vai doer como uma bala alojada no baixo ventre, esperando o momento certo de alastrar o chumbo para todo o organismo e ferir as vísceras, uma a uma, como que num fúnebre dominó na mesa suja de uma varanda abandonada de um boteco da zona oeste.

Isso machuca, eu sinto o golpe agora, desferido violentamente em silêncio contra minha testa, estômago e pescoço. O fogo carburando o último átomo de gasolina dentro do pistão, explodindo finalmente o combustível assombroso que faz um trem descarrilar e um carro perder o controle na curva.

Isso mergulha, e fura a espessa superfície de um livro velho, ainda não fichado.  Uma vontade humilhante de ouvir o Dark Side of the Moon sozinho e resignado. Cinco litros de café manchando o dia como óleo diesel, lubrificando e queimando toda a estrada embora pra casa.

Isso é mais um espasmo, uma luz que se apaga numa madrugada surreal de um outono precoce. Um solo de gaita descontextualizado, distante e afiado como um slide de navalha num vagão de trem indo pra St. Louis. Isso está terminando, embora pareça não me deixar nunca. E antes que acabe o último refrão de blues, eu vou uivar como um lobo bastardo  procurando o caminho de volta depois de uma caçada realmente iluminada.

E, merda, eu não desejo isso a ninguém - I got the blues again.

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