de onde eu vim
eu não entendo
do sul da Espanha e Itália
de uma figueira em Lisboa
de uma passagem à toa
um silêncio Atlântico
de onde eu vim
não sei bem certo
um desenho a lápis
numa escola de Cambé
um risco a tijolo
na rua café caturra
de onde vim
pra ser quem sou
era asfáltico e pedregoso
melancolia e afeição
sorriso frio e peito quente
em manhãs claras de inverno
eu vim
de onde eu fui
ser menino branco
num sonho rubro
ser tristeza branda
num pranto alegre
ser presente vivo
de um dia como hoje
- tão perto do passado
das ruas
da febre.
sexta-feira, 28 de junho de 2013
terça-feira, 25 de junho de 2013
Jornais do mundo burguês
abrem-se em manchetes colossais
e do lado esquerdo da rua
o silêncio
Do bangalô de luxo um suspiro
um suspiro do senhor do bangalô
e do lado esquerdo da rua
o silêncio
Foguetes ensurdecedores
rasgam o firmamento
em violentas explosões de júbilo
e do lado esquerdo da rua
o silêncio
O nome de Deus
pelas caridosas senhoras do soçaite
é pronunciado com emoção
elas agradecem
a salvação dos seus palácios
e suas piscinas ornamentadas
de coxas
seios
e virgindades mortas
e do lado esquerdo da rua
o silêncio
A "sagrada" propriedade
privada
da terra ensanguentada
está salva
os senhores da terra
matam bois e carneiros
para a festa antecipada
e do lado esquerdo da rua
o silêncio
O silêncio
do silêncio surge a "profecia"
"toda noite tem aurora"
quebra-se o silêncio
do lado esquerdo da rua
rompe o sol no horizonte
os raios invadem o lado
esquerdo da rua
a liberdade se anuncia
treme o lado
direito da rua
*Poema de Manoel Coelho Raposo, feito em 1964, durante sua
prisão no Quartel do 23º BC, Fortaleza, Ceará.
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