sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Quando for chegada a hora

Boa noite.
Quero aqui te receber com um beijo.
Não sei quanto tempo ainda me resta.

Quero aqui firmar o meu anseio,
Te prender por um instante no meu egoísmo peculiar

Eu saí do meu corpo,
E não te achei por entre os gritos.

Quando for chegada a hora,
A sua luz sempre há de me ferir
Guarde bem este meu beijo, a minha voz rouca
Quando for chegada a hora,
Conceda-me um bom dia.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante

carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisa que os valha

ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer, vai ser minha última obra.

Paulo Leminski 

terça-feira, 19 de julho de 2011

Por ser tão grande

Quando a noite enfim recai, numa semana intensa de inverno, um livro se destaca na estante. Ele tem a pele vermelha, como de maçã - talvez por isso sua projeção.
Na tua ausência eu te descubro por entre as páginas. Estás aqui. Sinto-te.

Quando o vento pára de soprar, Tom Waits recomeça noutra faixa, logo mais. Procuro um verso, um poema intitulado "Maçã". Riso sutil no começo de noite. Voz rouca e piano tímido, Manuel Bandeira então se sobressai:

Não te doas do meu silêncio:
Estou cansado de todas as palavras. 
Não sabes que te amo?
Pousa a mão na minha testa:
Captarás numa palpitação inefável
O sentido da única palavra essencial
- Amor.



domingo, 19 de junho de 2011

A única constância

A luz que sempre acende
O som que sempre ecoa
O bloco que sempre marcha

O motor da história
As flores de minh'ana.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Se ainda resta dúvida

Quando o quarto da empregada não for mais senzala
Quando o trabalho não for mais escravo
Quando o menino pobre não for mais marginal
Quando a comida não for mais restrita
Quando a escola não for mais obstáculo
Quando o jornal não for mais mentira
Quando o homem não for mais moeda
Quando a mulher não for mais objeto
Quando o desejo do povo não for mais motivo de guerra

Será que nós estaremos vivos?

Ao lado do povo eu luto a vida. Viver a morte já não me faz feliz.

domingo, 17 de abril de 2011

Nada é acabado, tudo é permanente construção

Daqueles que ainda sofrem repressão e permanecem calados, jamais sentirei fúria ou raiva, sempre lhes guardarei esperança.
É preciso amar a quem é reprimido, e amar ainda mais a quem reprime, pois, este sim, merece rápida providência.


*de pensamentos que se tornam tweets, de tweets que se tornam posts.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Raro encontro

Da sua casa até a minha, o desenho que imaginava na mente era da dança. Uma dança delicada e segura. Eu ia me distanciando pelas ruas e você deslizando os pés em minha direção. Girava e girava, sobretudo, sorria. Quando, enfim, cheguei ao destino, comecei a construir um encontro e esboçava um diálogo que findava em "eu te amo". Sentei à frente da mesa, e, com seu recado aberto, percorri meus olhos surpresos através de seu texto e senti um calafrio que subira minhas pernas e transformara-se em raro encanto. Com tal artifício, refiz-me. De volta à realidade, o banco ao lado já se encontrava vazio. A minha mão segurava a foto.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Seu verão meu

Sonhei lá do alto da pedra
Entre duas arestas me pus a deitar
Sob um céu descoberto
Eu me envolvia na rede
Do seu cantar

Balançava dentro da noite
Com mantra de Gil tentava ninar
Mergulhei no desejo
De súbito beijo
Talvez acordar

Meus olhos desertos
Acharam água no leito do seu marejar
Imersos na lucidez,
Petiz e Maçã
Sabiam chorar

Corei os ombros
Colados aos seus sob o sol a dourar
Pele que queima,
Raro verão:
Pontagrossense do meu Paraná