segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Televisão

cachoeira
ribeirão
riacho
água
pra me fazer despir a tralha

folha
flor
caule
casca
pra inebriar feito cachaça

mangue
pântano
mato rasteiro
mata fechada
já dá pra ouvir a cigarra

estrela
barro
lua
grão
tudo que não seja televisão

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Você, de touro

você, de touro
que abala minhas placas 
catatônicas
me faz ranger os dentes
com febril desejo

você, de ouro
com olhos turquesa
que dilata minha pupila
e aquece meu lençol

você, de novo
sem ter nunca sido um dia
me arrepia em novembro

revigora meu silêncio

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

No seco da areia

Um homem sem paixões
movido por desejos efêmeros
necessidades urgentes
e medo da perda de coisas que nunca teve

Na fila de um banco
no caminho pra casa
lembrando de sonhos antigos
de paixões que um dia esboçou sentir

Balançando entre a sombra e a luz que cada dia promove
ele surfa no fio das horas
esperando a cada segundo
a grande ressaca

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Vazio absoluto

era uma vez uma discussão
que se tornou insulto
sem argumento
encerrou-se o diálogo
ficando perene
o vazio absoluto

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Um cara esquisito

*leia ouvindo http://www.youtube.com/watch?v=zZaEA2PEvas

Quando ela chegou em casa, esbaforida, me encontrou ancorado no sofá, esperando pelo jogo. Investiu com frequentes espasmos alegres e dissonantes,
enquanto eu olhava de soslaio, fitando suas pernas morenas e longilíneas,
lançando risos em doses homeopáticas
Topada com um sujeito arrefecido, embora desejoso
sua sintonia acelerada foi reduzindo a marcha
até aterrissar ao meu lado na temperatura e clima ideais
Com suas pernas em meu colo,
eu acariciava sua pele ainda quente
Depois de alguns segundos de silêncio
ela finalmente concluiu:
- Você é esquisito.
- Esta é a minha melhor qualidade.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Bonança

cada pessoa tem um movimento de vento
soprando numa certa direção e velocidade
uma identidade

eu que já trazia um completo vendaval
senti de repente um ar estranho no varal
deslocamento de espaço e tempo
foi lá dar meu vento
surpreso com teu quintal

logo nesses dias de tempestade
fogo, terra, água, vontade
desejo ou necessidade

improvável e doce esperança
fervida em tempos de seca
retesando a represa
pra conceber a bonança

é bom ser criança
quando dançam os ventos

terça-feira, 13 de maio de 2014

Tipo Johnny Cash

Tinha um velho que cuidava do estacionamento que lembrava muito o Johnny Cash. Mas do tipo brasileiro barrigudo mesmo, com um sorriso sacana sempre pendurado no rosto. Todos os dias, perto da hora do almoço, ele tomava uma cachaça vagabunda num copo de plástico. recebia os carros com os olhos baixos e rabiscava a placa numa caderneta. Ao me ver, emitia um balido curto e grave: "Oh!". Não sei por que, mas toda vez que eu o via, parecia sempre que ele acabara de enviar um "foda-se" mentalmente para toda a realidade que o circundava. Um puta ser humano.

Penumbra

havia apenas um poste naquela rua escura e distante
a lâmpada agonizava um amarelo sujo
marília disse duas palavras, temperadas à frio e fraqueza
- não dá.
ela entrou em casa
josé ouviu o latido do cão
baixou o queixo ao peito e cerrou solene os olhos
a única luz rangia sob os primeiros pingos da chuva
até que não resistiu e apagou de vez.

Foda-se, Joaquim

acordou atrasado para a reunião
vestiu o jeans menos sujo e amassado que achou no caminho
teve que parar no posto pra não ficar sem gasolina
todas as ruas estavam congestionadas
sirenes dividiam espaço com sertanejos, funks, secos e molhados
quis pegar o cigarro no console e quebrou no filtro o último exemplar
alcançou uma avenida vazia
correu tudo que pôde
bateu no poste da esquina
80 por hora
meio-dia
desatou o cinto
saiu do chevette ileso
desceu a rua das moscas
entrou no boteco do baiano
pediu um conhaque
e riu pra cacete.

sábado, 5 de abril de 2014

Viver bem nada mais é do que pecar em grande estilo.

Distante

Ele vai acordar com a mesma ressaca. Será ejetado da cama com o sol lambendo sua nuca. Tomará os velhos quatro copos de água quente, por sempre se esquecer de por a jarra pra gelar. Ao meio-dia, a comida descerá do mesmo modo - um bolinho de carne nunca muda o gosto nem a promessa. A vida parecerá real quando a última lembrança do mesmo pesadelo se esmaecer. Isso apontará a hora certa de começar o trabalho - o que dá a ele a sorte de se desculpar do mundo. As 18 horas chegam - como estava planejado. Ele atravessa a rua como se carregasse a tocha olímpica dos desamparados. Entra no velho boteco, pede sua fiel cerveja e afunda na cadeira vermelha de plástico. O mundo é todo seu - o que significa 5 reais. Quando o sol decide baixar lá fora, a conversa entre os velhos não é nada mais que miséria para seus ouvidos de 23 anos de idade. A conta é paga e o adeus é dito. Na sombra que o resto do dia provoca, ele rabisca uma súplica na caderneta, enquanto ela está distante demais para qualquer pensamento.

Aviso prévio

quando eu me for
não vai sobrar nada
uma palavra
varrida
do mapa

Azul

Rodopiando no sereno da Canção de suas Cidades
eu tomara a água azul:
veneno doce que alegra a alma
no balcão de madeira eu retornava em brasa
abastecendo soluços e regressando em vulto
eu furava o público e amealhava psicodelias

nos suspiros finais da noite
fitei olhos azuis, da cor daquela água
pousei minha mão na tua
a trafegar pelos dedos de neve
aqueci meu peito na tua respiração

com o som ainda vivo
sorvi o teu desejo
quando a madrugada esmaecera,
deixando o sol vazar as folhas
o destino era outro
sob novo rock and roll.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Sombra e fumaça

Eu to metido numa espécie de merda,
cujo destino eu sei que não vai dar certo.
Eu já nasci com algo de errado no sangue e na mente,
cujo otimismo nunca manifestou inteligência.
Eu sobrevivo nos fumódromos sujos da zona oeste,
onde o amarelo do sol é inconveniente.
Eu que nunca mereci muita coisa,
sorrio babaca por alguns segundos e desmaio na penumbra de um dia que nasce.