sábado, 5 de abril de 2014

Distante

Ele vai acordar com a mesma ressaca. Será ejetado da cama com o sol lambendo sua nuca. Tomará os velhos quatro copos de água quente, por sempre se esquecer de por a jarra pra gelar. Ao meio-dia, a comida descerá do mesmo modo - um bolinho de carne nunca muda o gosto nem a promessa. A vida parecerá real quando a última lembrança do mesmo pesadelo se esmaecer. Isso apontará a hora certa de começar o trabalho - o que dá a ele a sorte de se desculpar do mundo. As 18 horas chegam - como estava planejado. Ele atravessa a rua como se carregasse a tocha olímpica dos desamparados. Entra no velho boteco, pede sua fiel cerveja e afunda na cadeira vermelha de plástico. O mundo é todo seu - o que significa 5 reais. Quando o sol decide baixar lá fora, a conversa entre os velhos não é nada mais que miséria para seus ouvidos de 23 anos de idade. A conta é paga e o adeus é dito. Na sombra que o resto do dia provoca, ele rabisca uma súplica na caderneta, enquanto ela está distante demais para qualquer pensamento.

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