sexta-feira, 26 de abril de 2013

A menininha


A menininha
empurrava a mochila
de rodinha

A mochila era rosa
o cabelinho, amarelo

Segurava um doce com a mão
lambia e lambia

Só mordeu quando a mãe lhe mandou.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Aconteceu



Ouvi um uivo de um vira-lata e dobrei a esquina errada, era a Sergipe com a Minas Gerais, passando um carro-forte com uma porção de caras mal-encarados olhando pra mim querendo me castigar por algo que não fiz. Comi meu sanduíche amanhecido e subi pra casa. Achei que fosse Belchior cantando rouco numa vitrola velha, mas era Bernardo Pellegrini embalando um blues com um naipe surreal de metais. Admirei de início. Sem acabar o disco todo, entrei num quarto vazio e dancei como o último milionário vivo no ocidente. Eu sofri quando a “Carro-forte” acabou, mas saí ileso com aqueles acordes calmos da “Prometeu” e desapareci na neblina fria do outono da região central.

Desculpe. Tive que parar pra tomar um gole de Antarctica e voltar ao mundo incrível que o groove especialíssimo da quinta faixa promete. Está acontecendo. Está rolando. Um chapéu do panamá decora a cabeça de um amigo improvisando um solo de baixo, surfando baixo pelo canto do meu quarto. Eu realmente estou gostando disso.
Ele disse que faria uma promessa e eu certamente não recusei. Um poema é um vel.

‘Tá só na metade.

“Kama sutra” te indica posições que o ouvido ainda não tinha navegado. Mas traz uma mensagem do passado que garante uma nostalgia precisa e fundamental. Um bandolim silvestre se completa com o arranjo original. Eu gosto do seu edredom, e nesse momento eu até imagino aquele velho quadro do Beatles enfeitando seu quarto com uma graça tremenda. Mais do que nunca, você é linda e essa crítica é uma autobiografia razoável. Tenho medo do que não sou e pareço ser.

“Rápido amor” tocará no meu casamento. E eu vou casar várias vezes. Todas serão o amor da minha vida, sou uma espécie de Fábio Junior bêbado de Velho Barreiro. Os olhares cruzam no retrovisor, certamente saberei seu nome olhando pela janela os seus lábios umedecidos de café. Eu te amo. Isso não acabou.

Eu choro mais que criança presa na creche em dia dos pais. Mas eu não posso chorar agora. Não com esse piano. Hesito em ligar pra uma central médica, precisando de apoio hospitalar. Mais um pouco estarei enterrado, por isso eu não quero chorar agora. Pelo menos não com essa melodia medieval ansiando o fim como um cachorro em leito de morte. Não choro.

Que blues.

O silêncio se permite.

Os vinte cigarros não bastam para o solo de “Se eu chorar eu morro”.

Acorde-me amanhã recebendo tratamento para enfisema. Não ligo. Só me acorde.

Parece que “O chapéu do meu avô” veio de Cianorte. Uma gentileza de Almería, consertando relógios como Rousseau e falando sobre o último jogo do São Paulo, sempre xingando o Rogério Ceni e me chamando de macuco. No seu quintal não há pés-de-cana, mas há muito café. Antonio Martinez, algumas boas décadas de vida e muito vinho do Rio Grande envelhecendo no balcão da antiga casa no jardim Bandeirantes.

Um fluxo contínuo me cortejando num sábado qualquer de uma vida inquestionável. Eu faço vocalizações acompanhado o elegante arranjo da última canção. Eu vou parando por aqui, isso está me levando pra Saturno. Isso não é bobagem. Estou ciente do que está acontecendo. Embora não pareça. Uma passagem só de ida.

É isso que vai acontecer, Bernardo.
“O amor é isso. Não prende, não aperta, não sufoca. 
Porque quando vira nó, já deixou de ser laço.”

(Mário Quintana)

terça-feira, 16 de abril de 2013

"eu não vou dizer que eu te amo
e nem deixarei de te querer".

Medo e delírio em algum canto do meu quarto


Isso vai doer como uma bala alojada no baixo ventre, esperando o momento certo de alastrar o chumbo para todo o organismo e ferir as vísceras, uma a uma, como que num fúnebre dominó na mesa suja de uma varanda abandonada de um boteco da zona oeste.

Isso machuca, eu sinto o golpe agora, desferido violentamente em silêncio contra minha testa, estômago e pescoço. O fogo carburando o último átomo de gasolina dentro do pistão, explodindo finalmente o combustível assombroso que faz um trem descarrilar e um carro perder o controle na curva.

Isso mergulha, e fura a espessa superfície de um livro velho, ainda não fichado.  Uma vontade humilhante de ouvir o Dark Side of the Moon sozinho e resignado. Cinco litros de café manchando o dia como óleo diesel, lubrificando e queimando toda a estrada embora pra casa.

Isso é mais um espasmo, uma luz que se apaga numa madrugada surreal de um outono precoce. Um solo de gaita descontextualizado, distante e afiado como um slide de navalha num vagão de trem indo pra St. Louis. Isso está terminando, embora pareça não me deixar nunca. E antes que acabe o último refrão de blues, eu vou uivar como um lobo bastardo  procurando o caminho de volta depois de uma caçada realmente iluminada.

E, merda, eu não desejo isso a ninguém - I got the blues again.

Calafrio

Meu coração é gelado
Um dia pagarei caro
Por ter o espírito louco
E o corpo fraco.