quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Falível anatomia

O forasteiro se bicou ao centro dos comuns
franziu a testa algumas vezes
quase perdeu uma das veias frontais
sorrateiramente se pôs a frente de todos
quando a atenção era unânime
bradou sem titubear: porcos insolentes!
todos se levantaram e se puseram a largar o incidente
menos a velha que posava sobre o banco
bebia um insípido resto de gasosa
disparou um olhar desprezível sobre o forasteiro
ele percebeu uma reprovação inerente
coisa de gente sem respeito
faltou-lhe olhos para dentro
assim sua anatomia seria justa e decente

sábado, 30 de outubro de 2010

Deu a hora.

Eu engatei a segunda. Problema foi ter ligado o carro.
Na verdade, foi por responsabilidade. Sempre é, sempre será.
Sabemos.

Choveu forte, rendeu risos. Sempre rende.
Foi motivo, uma viagem, uma questão de educação.
Em casa.

Pisei com o sapato molhado, mais risos, incrível.
Olhos nos olhos, sua boca distante. Deu a hora.
Engatei a terceira.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Café fresco.

Tempo passou
De imediato, aceitei
Fiz confusão
Baguncei


Tempo voltou
De imediato, aceitei
Fez-me outro café
De novo, tomei


Tempo passou
De imediato, curei
Ao café que restou
Outro gosto lhe dei


Tempo chegou
De imediato, gostei
'Inda hei de arcar
A imediatez que me dei

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

domingo, 26 de setembro de 2010

Cor de maçã.

Lá fora o frio voltava, e sem ter por quê. Entrei como se fosse normal, já aceito o destino da noite sem lua. Esbarrei nos móveis, todos empoeirados, foi longo o caminho até o interruptor pra encontrar em luz o lápis e o papel. Escrevi meia dúzia de palavras e as achei incríveis, desenhos expressionistas de valores impagáveis pendurados nas paredes do Louvre. Acordei deste delírio de súbito, não te encontrei à porta, voltei os olhos no papel e o sangue lhes escorria e manchava o meu desejo, gota por gota, avermelhando numa abóboda que ia se enchendo, cor de maçã argentina, cobrindo meus dizeres: Envolta nos meus braços, respirei seu cabelo, ela, meu pescoço. Com a casa que construímos, dormimos o mesmo sonho.

Lá fora o frio voltava, e sem ter por quê. Entrei como se fosse normal, já aceito o destino da noite sem lua. Esbarrei nos móveis, todos empoeirados, foi longo o caminho até o interruptor pra encontrar em luz o lápis e o papel. Escrevi meia dúzia de palavras e as achei incríveis, desenhos expressionistas de valores impagáveis pendurados nas paredes do Louvre. Acordei deste delírio de súbito, não te encontrei à porta, voltei os olhos no papel e o sangue lhes escorria e manchava o meu desejo, gota por gota, avermelhando numa abóboda que ia se enchendo, cor de maçã argentina, cobrindo meus dizeres: Envolta nos meus braços, respirei seu cabelo, ela, meu pescoço. Com a casa que construímos, dormimos o mesmo sonho.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Da Terra, do que resta, do que ainda faz Djavan.

Viajando por esta terra atrás do que dela ainda resiste, encontrei cachoeiras, córregos, rios que ainda choram beleza tamanha que o conhecimento humano já se desgasta em tentar descrever. Os índios não sobreviveram à ação da espécie humana deturpada, o que pode a natureza fazer a não ser buscar o próprio equilíbrio? Os desastres são berros de um recém-nascido que falta o leite a mamar. E a mãe que foi morta por homicidas vulgares. Os mesmos que há séculos matam mães a troco de miséria. Miséria que alimenta o mesmo miserável espírito. O dia em que pedirão por redenção ainda demora a chegar. Enquanto isso, veio a calhar o Capim de Djavan que ouvi há pouco na Rádio UEL.


Capim do Vale Vara de goiabeira na beira do rio paro para me benzer
Mãe d'Água sai um pouquinho desse seu leito ninho que eu tenho um carinho para lhe fazer

Pinheiros do Paraná que bom tê-los como areia no mar
Mangas do Pará Pitombeiras da Borborema a Ema gemeu no tronco do Juremá

Cacique perdeu mas lutou que eu vi
Jari não é Deus mas acham que sim
Que fim levou o amor?
Plantei um pé de fuló, deu capim 


domingo, 29 de agosto de 2010

Pega de surpresa, calou.

Dos casos que ela teve nunca me dei ao luxo de me dar. Tendo dito que são, os casos, de propriedade dela, nada tenho eu a ver com isso. Nunca precisei de histórico e ficha de cartório pra viver o presente. O presente continua me parecendo um pacote. Um pacote que vai se abrindo aos poucos, e o que tiver nele é interessante que colha aquilo que lhe convém. Este pacote que ela representava me agrada até os dias de hoje. É porque a colheita é sempre agradável, sempre foi. Cuido muito que seja assim sempre. É que vim falar do deslize que me pegou, de repente, e andei a vasculhar casos que não tenho direito, tanto de averiguação quanto de intervenção, e junto com o deslize inicial, uma bola de neve ganhou tamanho e veio a rolar montanha a baixo, mesmo que a bola não tenha lá muita água. Só não queria deixar o deslize virar loucura, por isso esforço minha lucidez por aqui e digo sobre o hábito - que não deveria ser hábito, pela leviandade de ação - de dizer amar alguém. Uma vez leviano, o tal hábito, parei-me de consolo. Comigo não foi tão fácil dizer amor. No segundo momento eu paro e contento: comigo ela se fez admirar a si mesma, pega de surpresa, calou.

sábado, 24 de julho de 2010

Flor Viva


Uma menina que veio, seguindo o desenho traçado, 
encontrou-me na esquina da despretensão
e, ali, nos meus braços, ficou.

A semente vingou,
deu época, deu razão, deu fruto.

O Sol explodia em motivos para luzir o que
era naturalmente belo. E é belo.
Como qualquer coisa que floresce da natureza.

Eu sei que o tempo é um soluço e, a cada soluço, 
a gente encaixa um jeito de dar alguns goles.
Uma vez que a fonte é infindável, 
água é fonte de vida e rega a nossa razão.

Talvez o mundo não saiba, talvez não precise saber...
Mas aquela semente semeou o que de mais necessário
este ser humano buscava, a flor viva que nasce e morre
no meu peito. 

sábado, 17 de julho de 2010

Feliz Egoísmo

Na verdade eu sou meio egoísta.
Quando eu te faço sorrir
É porque eu sorrio com teu sorriso
E, por isso, me sinto feliz.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Da alma.















Não há nada mais admirável do que brincar de Deus. Eu paro, é noite, é algo que surge. É madrugada dentro de mim. Mundo que se converte num só pensamento. A felicidade não é infinita, tampouco absoluta. Felicidade é momento que te alimenta na eternidade de alguns segundos. Parar para escrever, meio a toda revolução externa, meio ao caos diário e a tempestade do dia. E é noite. Eu sei. É nela que ponho minha cabeça ao colo. Estão nos dedos todo meu fervor. Estão nas palavras tudo que é válido para o agora. É todo meu legado em algumas frases, em alguns suspiros. Eu erro e erro sempre, na busca frustante da perfeição. Os erros lapidam minha jornada. O diamante irregular de minha existência. Quando sinto a verdade correndo baixo pelos meus sentidos e, com firmeza, a redação afora, brinco um pouco de Deus, é boa ventura humana em atividade. Exalar de sabedoria, breve, acaso. Alívio da alma.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Eu e a noite.

Estou aqui de novo
eu e a noite
somos donos do mundo
ela dona de mim

consumindo meus movimentos
observando meus anseios
sabe de tudo que desejo
e de qualquer coisa que temo

por vezes, vem acompanhada da Lua
que traz dentro da túnica
uma vasta sabedoria
me põe no colo
enxuga minhas lágrimas

não há barulho que vença
o ruído maior que me ecoa
de dentro de toda minha'lma
sangue vibrando em derrame

o breu envolve meus olhos
manta pesada e serena
afaga meu pranto
me põe a dormir

terça-feira, 4 de maio de 2010

Era de Aquário.

A indiferença é irmã da acomodação.
O descaso é caso de fracasso, é mera falta de
convicção.

Sem julgamento, nem disfarce,
só cartas à mostra, sem proposta, sem diálogo.
O vaso está vazio. O prato ta sem gosto.
Criança sem almoço na volta do hospital.

Quem disse que há verdade? Acabou a liberdade?
Onde estão os corações?
Tem gente fazendo cena, tem mulher chorando penas,
tem futebol e sacanagem.

O mundo está girando, tem milênios, sem enganos.
A natureza se inverteu, o homem sucumbiu, o
amor é objeto de estudo.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Não há ninguém por perto. Cada vez que encontro a cama meu peso aumenta sobre as vigas. Cada noite é um peso maior. Cada noite é um delírio. Tudo farsa. É um vício. Vícios são indiscutíveis e arrasadores. São turbilhões que não têm cheiro, cor, muito menos gosto. Invado discussões querendo ganhar algum crédito. Visto minha farda e dou disparos. Sem licença nem pudor. Tinha um por quê em querer explorar o campo. Fazia parte do instinto conhecer o terreno. Agora é área miserável. E sou indigno. Não me disponho. Perdi a sensação.  Eu finjo conhecer todos os medos e sou péssimo ator. Talvez eu os tenha todos. E resolvi não exergá-los. É uma opção incontestável e maldita.  Não é castigo nem punição. É merecimento. Quando se prejudica o próprio corpo, o ambiente é todo contaminado. Por isso, não há ninguém por perto.

sábado, 24 de abril de 2010

abjeto.

penso nada.
foi tirado este meu recurso,
foi dilacerado o caramujo,
o lento e pesado - cujo.
derramado em pedaços sujos.

ergue-se em vão o musgo.
verde, poço profundo
verde sujo, verde preto
pecado grave em segredo
sou corpo morto, esqueleto.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Fotolink aproxima artistas com o público

Encontro com o artista provém valorização e proximidade dos admiradores da arte fotográfica com os artistas participantes.  

No evento que aconteceu no último sábado (17), pessoas da comunidade, entre elas, estudantes, educadores e demais admiradores da arte tiveram um encontro com os artistas do Fotolink – Festival Internacional da Imagem.. Somando sensações de amizade e profissionalismo, Edson Vieira, Natália Lima Castro, Walter Ney, Maíra Motta, Karen Debértolis, Wiviane Knott e Fábio Gatti apresentaram suas obras e, ao final das apresentações, receberam comentários e elogios do público presente.

Os autores expuseram seus mais recentes trabalhos. Walter Ney, iniciando o evento, mostrou um vídeo com fotografias tiradas em Itaberaba (BA). “DOR” é o nome da obra que expressa a vida e o abate dos bois em uma fazenda, assim como a relação do homem com os animais. O baiano de Andaraí comentou sobre sua infância e fascínio pela fotografia que aconteceu aos 17 anos. Também já teve participação no Festival Internacional de Londrina (FILO), montando uma oficina de fotografia com os alunos do Centro Estadual de Educação para Jovens e Adultos (CEEBJA).  

O professor e fotógrafo Edson Vieira expôs seu trabalho realizado com registros históricos da cidade de Londrina. Com uma preocupação em recuperar negativos do antigo “Foto Estrela”, Vieira mostrou imagens que retratavam desde o progresso econômico da cidade, provenientes do café, até seu declínio. Recuperou fotografias de Armínio Kaiser que registrava a decadência e a desilusão do trabalhador rural que via-se já em um ambiente bem menos promissor. Um pouco do trabalho de Edson Vieira pode ser acessado em www.camaraclara.org.br.

Wiviane Knott, professora e estudante da Especialização Práxis e Discurso Fotográfico pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), apresentou seu trabalho realizado na Grécia, Espanha e Brasil a partir de câmeras de lomografia. Associando a arte ao cotidiano, a artista registra de uma maneira rica e experimental as situações do dia-a-dia das pessoas. Ainda lamenta a falta de câmeras de lomo no Brasil e informa que sua fabricação é Chinesa – originalmente e não mais em produção na Rússia.

Sexualidade e brinquedos infantis constroem o mais recente trabalho de Fábio Gatti, fotógrafo formado em desenho industrial e pós-graduado em Fotografia pela UEL. Em ensaio com bonecas que se relacionam com o ambiente e insinuam uma relação sexual, Gatti mostrou sua obra intitulada como “Auto Retrato”. Ainda comentou sobre outro trabalho, “Caderno meu cu”, que aborda temas bíblicos e discussão sexual.

Natália Lima Castro apresentou “In a dream”, seu último trabalho fotográfico. A obra é marcada por elementos oníricos e é elaborada com performances teatrais que representam a relação do homem e da mulher. Faz uma crítica a uma sociedade machista por meio de artistas homens, e aborda temas homossexuais nas representações. A estudante de jornalismo também faz parte do Coletivo Manada – Grupo composto por vários artistas de diferentes vertentes da expressão da arte.

Maíra Motta, fotógrafa formada em desenho industrial e especializada em fotografia Pela UEL, mostrou seu mais recente trabalho realizado a partir de um projeto de Karen Debértolis que dividiu poemas para que fossem fotografados e traduzidos pela poética de cada artista. Maíra ao ler o poema “Ignorância”, não hesitou “É meu!”, as palavras do poema traduziam perfeitamente os momentos e emoções que a fotógrafa passava. O questionamento do descaso e do preconceito que o estrangeiro tem pelos hábitos e costumes brasileiros são marcas do trabalho de Maíra – que também fez imagens de “O cotidiano das coisas”, mais um poema de Karen Debértolis.

Finalizando as apresentações do encontro, a escritora e jornalista Karen Debértolis mostrou o que seria o seu trabalho que mais se relaciona com a fotografia: “A estalagem das almas” é uma produção literária que traduz a poética da imagem. A obra que teve trabalhos co-relacionados com a fotografia, também se transformou em peça teatral em 2008. “O livro é um objeto de arte”, acrescentou a escritora ao confessar que já adquiriu vários livros pela arte das capas e que em muitas vezes valeram a pena as aquisições.

O bate-papo se encerrou com alguns comentários do público presente que agradeciam pela disposição e preocupação dos artistas para com os convidados e pessoas da comunidade. A competência e a riqueza poética de cada trabalho juntamente com a proximidade dos artistas com o público marcaram o encontro que trouxe aos admiradores, a força cultural de nossa região, e aos artistas, o reconhecimento e motivação para que os trabalhos continuem em produção.




sexta-feira, 9 de abril de 2010

Prazer.

Se sou pouco, pouco basta
Minha alma é vasta
Se anseio muito e nada resta 
O que consigo é o que me presta

A riqueza é fogo, terra, água e ar
Estrela da areia, chão de mar
Céu ensaboado, Lua, Sol e ser
Amor e paz, prazer lhes conhecer.

sábado, 27 de março de 2010

Educando os ouvidos.

Amadurecimento é perda e ganho.

Perda de egoísmo,
Perda de apego,
Perda de vaidade.

Ganho de humanismo,
Ganho de mudança,
Ganho de valor.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Parabéns, mãe!

E não adianta que se passem os anos, tampouco os sóis e as chuvas que mudam de tempo em tempo. Ainda que o mundo desabasse em miséria e discórdia, que o céu não soprasse sobre nossas cabeças ventos mais calmos e os mares nos dessem as costas, que a terra se revoltasse em intermináveis abismos e abalos, e os homens, incrédulos, perdessem o bom senso e memória, ainda assim, restaria meu amor por você, simplesmente, criador e criatura, numa inexplicável dança eterna, para qualquer motivo, razão, sentido ou direção.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A caixa

Do teu bolso conheço um gesto
Preciso ver o que há na caixa
Só o que nela consta me confortará
A minha curiosidade é fulminante

Esta pequena fechadura
Guarda o que será suficiente
Para voltar ao dia, o Sol luzente
E livrar o que se sente

Não imagino, e sou sincero
O que tem dentro eu muito espero
Germine paz nestes espíritos
Não faça destes o que quiseres

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Imensidão



E do nada
                Imensidão

Voa longe, além da visão
Saberemos nós, qual a razão

Se está escrito
dito
lido
Não importa, é vão

Percebo claro,
convicção


O sentido existe
Na pulsação.

domingo, 3 de janeiro de 2010

A casa do Baleiro.


É mais fácil cultuar os mortos que os vivos
mais fácil viver de sombras que de sóis         
é mais fácil mimeografar o passado

que imprimir o futuro

                                                     Não quero ser triste
como o poeta que envelhece
lendo maiakóvski na loja de conveniência
não quero ser alegre
como o cão que sai a passear com o seu dono alegre
sob o sol de domingo

Nem quero ser estanque
como quem constrói estradas e não anda
quero no escuro
como um cego tatear estrelas distraídas

Amoras silvestres no passeio público
amores secretos debaixo dos guarda-chuvas
tempestades que não param
pára-raios quem não tem
mesmo que não venha o trem não posso parar

Vejo o mundo passar como passa
uma escola de samba que atravessa
pergunto onde estão teus tamborins
pergunto onde estão teus tamborins
sentado na porta de minha casa
a mesma e única casa
a casa onde eu sempre morei


- A conveniência de se viver parado é, em muitos casos, inevitável. Não é necessário que se mova a todo tempo, mas que o use para se absorver. Dentro de casa pode ser difícil perceber o que se passa lá fora, mas basta abrir as janelas e deixar que o mundo lhe ofereça interesse.

* Zeca Baleiro - Minha Casa